Massacre em realengo
Alexandre Passos fala sobre o massacre em realengo.
Segundo o meu entendimento, a carta deixada por Wellington Menezes de Oliveira, autor do massacre de estudantes na Escola Tasso da Silveira Hall, em Realengo, região oeste do Rio de Janeiro, tem um teor delirante, característico de doentes mentais que padecem de transtornos psicóticos esquizofrênicos, onde é comum a incorporação de elementos culturais, como as referências religiosas.
O delírio, de acordo com Freud, é uma tentativa de reconstruir laços objetais perdidos. Nesse contexto, as referencias religiosas não comparecem como um modus operandi [expressão latina que significa modo de operação], não estando dotadas de uma relação de causalidade, mas de contigüidade, sendo apenas incorporadas às construções delirantes.
Os rituais descritos por Wellington, na carta, estão relacionados à questão da castidade. Ele se apresenta como uma pessoa celibatária que não pode ser tocado por pessoas impuras, que segundo sua concepção, são aqueles que tiveram relações sexuais antes do casamento. Em sua carta Wellington se afirma como um virgem. A rigor o psicótico não se inscreve na ordem da sexualidade; não tem acesso ao gozo fálico.
Pautado numa experiência de mais de vinte anos no tratamento de pacientes com transtornos mentais, considero reducionismo subsumir Wellington na mera categoria de portador de transtorno de personalidade anti-social, e acredito que Wellington era portador de um grave transtorno psicótico, provavelmente esquizofrenia, elegível a um tratamento interdisciplinar.
O mais importante a ressaltar neste momento, de luto e de dor, motivado pela morte de crianças e adolescentes indefesos, é que Wellington não era apenas um monstro. O fenômeno Wellington dotado de tamanho poder de destruição não está dissociado de um contexto social discriminatório e não inclusivo. Subsumir Wellington no rótulo de monstro e ignorar tal contexto que nutriu a emergência de tal comportamento pode apaziguar a sociedade, mas não abstém o Estado de sua responsabilidade social de promover a saúde e proteger a sociedade, pois saúde é direito do cidadão e dever do Estado e também, como vimos, questão de segurança. Não é suficiente militarizar o Estado. É necessário ampliar a rede de tratamento psicossocial, de forma quantitativa e qualitativa, com equipe interdisciplinar efetiva, que possa garantir um vinculo terapêutico, fundamento de qualquer tratamento possível.
Wellington estava sozinho, foi vítima de bullying e tornou-se órfão de sua mãe adotiva recentemente. Sua mãe biológica era esquizofrênica e seu pai biológico era desconhecido.
Apesar de não podermos traçar um diagnóstico post-mortem conclusivo, como psicólogo atuante também no sistema prisional rejeito o rótulo de sociopatia que tem sido amplamente atribuído e explorado pela mídia.
É natural a revolta e a desgarga de todas as reações na figura de Wellington, que incorpora o monstro, todavia se desejamos lidar honestamente com este problema devemos ressaltar que Wellington foi um doente mental sem tratamento. Faltou um olhar e uma escuta para os vários sinais que ele enviara desde a infância e adolescência, como comportamento bizarro, acanhada reação ao bullying sofrido na vizinhança e na escola em sua infância, introversão, isolamento pessoal, etc.
Se tais esses sinais tivessem sido, ao longo do tempo, observados e Wellington devidamente tratado, sua história e a historia dessas tantas crianças assassinadas, pelas quais choramos, poderia ter tido um outro desfecho.
Se Wellington tivesse sido criteriosamente medicado e tido acesso a um tratamento psicológico, onde seu delírio pudesse ter sido acompanhado talvez chegasse a uma metáfora delirante que suprisse a ausência do significante nome-do-pai , ausente na estrutura psicótica, que o ajudasse a se ancorar de melhor forma na ordem simbólica dando a sua existência um outro sentido.
Geralmente os crimes cometidos por esquizofrênicos atingem as pessoas mais próximas, na família ou vizinhança e não ocorrem em série. Wellington estudou numa escola freqüentada por crianças da vizinhança e cometeu um assassinato em série, mas num único ato ou crime continuado. Wellington não tinha antecedentes criminais.
O massacre cometido por Wellington destaca-se dos crimes mais comumente atribuídos a outros doentes mentais esquizofrênicos. Geralmente os crimes cometidos por esquizofrênicos obedecem vozes alucinatórias e se dão sob impulso repentino. O crime cometido por Wellington foi premeditado, como os crimes hediondos cometidos por personalidades esquizóides, porém, ocorreu dentro de um franco delírio psicótico, o que justifica a hipótese de esquizofrenia.
Em seu delírio psicótico, evidenciado em sua carta, Wellington separa promiscuidade de castidade, assassina crianças indefesas, e doa sua casa a entidades de proteção de animais abandonados. Wellington exibia um comportamento bizarro misturando jogos de guerra, citações fundamentalistas cristãs e islâmicas, vindo até a identificar-se com Bin Laben.